22 de set de 2015

WhatsApp cria dilema para operadoras de telefonia

A lista das plataformas online com mais usuários em todo o mundo é liderada pela rede social Facebook, com 1,5 bilhão, e pelo serviço de ví­deos YouTube, com uma audiência de 1 bilhão de pessoas — ambos referências na internet há anos. Mas é o terceiro colocado, o aplicativo de comunicação WhatsApp, que cresce numa velocidade mais elevada.

Depois de aumentar 350% em apenas dois anos e meio, o número de usuários acabou de chegar a 900 milhões, segundo o ucraniano Jan Koum, presidente da empresa. Isso significa que a audiência dobrou de tamanho nos 18 meses desde que o WhatsApp foi comprado pelo Face­­book­ por 22 bilhões de dólares em 2014. No segmento de troca de mensagens, o aplicativo é líder em 15 dos 33 países analisados pela consultoria britânica GlobalWebIndex, inclusive no Brasil, onde metade dos usuários de internet o abre regularmente. 

O sucesso do WhatsApp é um pouco surpreendente. O Facebook foi a primeira rede social a atingir a marca de 100 milhões de usuários. O YouTube seguiu pelo mesmo caminho no setor de vídeos. Já o WhatsApp é um caso à parte. Antes dele, houve dezenas de softwares de troca de mensagens. Alguns, como o BlackBerry Messenger, foram muito populares.

O que pavimentou a ascensão do WhatsApp foi cair nas graças dos usuários justamente quando os smartphones começaram a se espalhar pelo mundo. Com o acesso à internet, suas ferramentas, como a troca de textos, fotos e recados de voz, ganharam em eficiência. Mais recentemente, as chamadas telefônicas pela internet entraram no menu de opções. E tudo isso por apenas 1 dólar ao ano.

É toda essa facilidade quase gratuita que não para de atrair usuários — e também de enfurecer parte das operadoras de telefonia móvel. Elas não têm dúvidas sobre quem é o culpado pela queda na receita de SMS e de ligações. No Brasil, o Whats­App é abertamente criticado.

“Não temos problemas com serviços de dados e mensagens. Nossa preocupação são as chamadas telefônicas pela internet”, diz Amos Genish, presidente da Vivo. “Essa ferramenta não é uma inovação. É uma simples pirataria.”

O pano de fundo dessa briga é a revolução em curso no setor de telecomunicações. A expectativa é que as operadoras deixem de ser empresas de telefonia para se tornar, em primeiro lugar, provedores de internet móvel. “O serviço de voz não vai acabar, mas está havendo uma mudança radical no perfil de uso do celular e na receita das operadoras no mundo inteiro”, afirma o economista Ari Lopes, analista para a América Latina da consultoria Ovum, com sede em Londres.

Em um ano, a TIM perdeu 35% da receita de mensagens de texto. A Claro viu o faturamento de voz cair 18%. Até a Vivo, única que registrou crescimento na receita de telefonia móvel, teve queda de 5,5% nos ganhos com ligações ­­— uma redução de 164 milhões de reais no último ano. Por outro lado, as operadoras de telefonia móvel estão ganhando cada vez mais com a venda de planos de dados.

Nos últimos 12 meses, a receita da Vivo com pacotes de internet cresceu 51%. A da Claro, a que menos aumentou, teve uma expansão de 35%. A expectativa é que o faturamento das empresas com serviços de dados ultrapasse a receita de ligações em quatro anos.

Para um número crescente de usuários de celular, ter acesso a mídias sociais, mapas, músicas e vídeos é mais importante do que fazer ligações telefônicas. As pessoas estão mesmo falando menos ao celular. A média de uso por cliente é de 117 minutos por mês. Há exatamente um ano esse número era 9% maior.

Nesse contexto, o WhatsApp é ora inimigo, ora aliado. Quando compete diretamente com as chamadas telefônicas via ligações pela internet, é atacado. Na hora de convencer seus clientes a comprar planos de dados, as operadoras tratam o WhatsApp como uma atração. A Claro e a TIM oferecem pacotes que não descontam o tráfego de dados do WhatsApp ou de redes sociais, como Facebook e Twitter. O objetivo é gerar um estímulo ao serviço de internet.

“Os aplicativos são um motivo para o cliente gastar mais com planos de dados. O WhatsApp acelerou a demanda do consumidor por smart­phones”, diz Eduardo Tude, diretor da consultoria em telecomunicações Teleco, com sede em São José dos Campos, no interior paulista.

Filipe Serrano, de Revista EXAME