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15 de jul de 2018

Depois da comemoração, o que acontece com a taça da Copa do Mundo


Então, em um enredo que se repete a cada quatro anos, o troféu de ouro viajará para o país vencedor e será parte fundamental de todas as comemorações. Algumas semanas depois, entretanto, em data nunca divulgada exatamente - por razões de segurança -, a taça estará na pacata cidade de Paderno Dugnano, na região metropolitana de Milão, norte da Itália.
Ali, em um galpão simples, localizado em uma tranquila rua de uma região industrial, os sete ourives que trabalham na fábrica da empresa GDE Bertoni já estão prontos para receber a famosa taça.

E mãos à obra: entre os afazeres, precisam deixar o troféu tinindo como se fosse novo e gravar, no disco circular que fica em sua base, o nome do último campeão.

"Há quatro anos, foi ele quem fez essa gravação", conta o funcionário Pietro Bambrilla, de 45 anos, apontando para o colega Salvatore Iannetti, de 48, responsável por registrar o nome da Alemanha, vencedora do campeonato realizado no Brasil.

Iannetti assente com a cabeça, sem parecer dar muita importância para o fato de ter acionado a gravadora eletrônica que escreveu '2014-Deutschland' no emblemático disco de ouro.

Grafias
A gravadora eletrônica é uma máquina grande, como se fosse uma impressora industrial, que tem na ponta um mecanismo semelhante ao de um pirógrafo. Ela é acionada por um programa de computador, rodado ao lado, em um velho PC desktop bege, igualzinho àqueles que muitos tinham em casa até alguns anos atrás.


O padrão é este: o ano do campeonato seguido pelo nome do vencedor, em grafia que respeite o idioma do campeão. Assim, em 1994 e 2002, está lá escrito Brasil, exatamente da maneira como escrevemos, em português. Se a França vencer este ano, será escrito como em 1998: France. Se o título ficar para a Croácia, o software será programado para gravar '2018-Hrvatska'.

Pietro Bambrilla, que trabalha na GDE Bertoni há 20 anos, lembra-se que foi em clima de festa que a taça foi recebida para a gravação '2006-Itália'. Pessoalmente, ele não liga muito para futebol, então diz que não ficou assim muito chateado pelo fato de a Azzurra nem sequer ter sido classificada para a Copa de 2018.

Mas esta gravação é o único processo mecanizado pelo qual passa o troféu da Copa do Mundo, com seus cerca de 6 quilos de ouro. A taça, obra idealizada em 1971 pelo ourives e escultor Silvio Gazzaniga, que morreu em 2016, aos 95 anos, é toda confeccionada de forma artesanal.

A taça
Quando o Brasil sagrou-se tricampeão mundial, em 1970, a FIFA se viu obrigada a aposentar o troféu Jules Rimet - pois o combinado era que a primeira seleção que vencesse três vezes a Copa ficaria com a pose definitiva da taça. Então foi aberto um concurso para escolher a premiação substituta.

Participaram 53 empresas de todo o mundo. A GDE Bertoni, empresa fundada em Milão pelo ourives Emilio Bertoni, já tinha certa experiência no ramo esportivo, pois havia feito as medalhas para os Jogos Olímpicos de Roma, em 1960.

A firma era então gerida por Giorgio Losa, neto do fundador. O funcionário Gazzaniga fez o desenho. Losa levou pessoalmente um molde de gesso até a sede da Fifa para o certame. Levou a melhor e voltou com a missão: fabricar a taça que já seria utilizada na Copa de 1974.

E mesmo sendo a peça original, em ouro 18 quilates, um item único, sempre em posse da Fifa, o trabalho da GDE Bertoni não para por aí. Eles são incumbidos de produzir réplicas, idênticas em forma e com peso semelhante, que são entregues, em definitivo, às seleções campeãs. Em vez de ouro, há uma liga de cobre e zinco - mas banhada a ouro em três demãos.

Foi uma dessas réplicas que Bambrilla manuseou para as fotos que ilustram esta reportagem. E são réplicas assim que todos os países que venceram a Copa do Mundo desde 1974 guardam em suas salas de troféus - Alemanha (três vezes, em 1974, 1990 e 2014), Brasil (duas vezes, em 1994 e 2002), Itália (duas vezes, 1982 e 2006), Argentina (também duas vezes, 1978 e 1986), França (1998) e Espanha (2010).

Restauro
A cada quatro anos, toda vez que a taça original e única da Copa do Mundo retorna para Paderno Dugnano para a gravação do nome, os artesãos sabem que o serviço precisa ser completo. Aquelas duas faixinhas verdes, feitas de uma pedra chamada malaquita, são substituídas por novas - segundo Bambrilla, o material é frágil e costuma trincar com o manuseio no calor das comemorações.

O troféu também é limpo e polido. Fica novinho em folha antes de retornar à sede da FIFA, em Zurique, na Suíça.

Todo esse processo costuma levar pelo menos duas semanas. É feito em sigilo, sem alarde, por razões de segurança - e para não quebrar o sossego da silenciosa e quase sem movimento ruazinha onde a GDE Bertoni se localiza.

Paderno Dugnano é uma cidade de 47 mil habitantes. A oficina da empresa está no endereço atual desde 1995. Foi fundada em Milão, na Corso Garibaldi, rua conhecida por ter sido reduto de artesãos, em 1907. Nos anos 1940, foi transferida para a cidade de Novate Milanese, na mesma região.

Desde 2010, a empresa é comandada por Valentina Losa, uma publicitária de 38 anos, bisneta do fundador. Ela, que cresceu com o orgulho de saber que a taça da Copa retornava para "casa" a cada quatro anos, acompanha de perto o trabalho da sua equipe.

"São dias especiais, em que todos os detalhes precisam ser observados. E honramos nossa história", diz.

A esta altura, o comando do futebol do país campeão já estará de posse da réplica oficial que lhe é de direito. E então, como se fosse nova, tão brilhante como era quando estreou no Mundial de 1974, a taça Copa do Mundo FIFA voltará para Zurique, na Suíça. Onde ficará guardada, à espera do Mundial de 2022.

Fonte: Uol